Alfabetização e analfabetismo visual: o futuro do léxico mais antigo de todos

Publicado em 24 de novembro de 2016 na categoria Sem categoria

“The Liberator”, René Magritte, 1947.

 

 

Vivemos em um tempo no qual a máxima-clichê “uma imagem vale mais que mil palavras” tem seu sentido ampliado ao máximo alcance. Somos uma sociedade que ultra valoriza a imagem, seja ela a que nos é apresentada ou a que produzimos através de nossa própria expressão. Uma profusão de imagens bombardeia o cidadão comum diariamente, criando espaços para induzir gostos, preferências e interpretações; julgamentos e conclusões, mais das vezes, sem a possibilidade de uma análise crítica daquilo a que somos expostos.

 

 

A conexão direta com a linguagem visual parece ser imprescindível para a existência humana no século XXI – a era da informação, e por excelência, da informação que se apresenta primeiramente de forma visual -, mas o que notamos, cada vez mais marcadamente, é uma grande lacuna entre a mensagem e seu receptor, principalmente quando a tarefa é comunicar através do léxico visual. De complexo entendimento, essa deficiência fica ainda mais ressaltada nos resultados finais das peças gráficas. A incapacidade do ser humano médio do início do terceiro milênio em compreender conceitos básicos da sintaxe visual é o mote que nos leva a discutir questões sobre a importância do alfabetismo visual, e, também, a tentar mensurar as consequências do analfabetismo imagético.

 

 

Para dar a real dimensão ao problema, é preciso destacar a importância fundamental e primordial comunicação visual nas relações humanas. Engana-se quem presume que a primeira forma de comunicação humana é a fala. As habilidades de nos exprimirmos por meio do som, e criar códigos complexos através dele são impressionantes – e talvez únicas na natureza – mas o som não é, e nem poderia ser, nossa manifestação primordial da racionalidade e consequente capacidade de criar cultura.

 

 

Ao contrário do que pode parecer óbvio, nossa sofisticação linguística tem origem no universo imagético. Apesar do choro do recém-nascido ser nossa primeira expressão reconhecível no mundo exterior, nascemos incapazes de articular palavras, e em nossos primeiros anos, nos é impossível depreender e concatenar ideias a partir da fala. Todavia, antes de tudo, até mesmo da racionalidade que nos define, o ser humano é uma criatura visual. E a origem dessa percepção é o que a torna tão fundamental.

 

 

Primeiras visões

 

 

Nossas primeiras impressões do mundo podem até ser tácteis e olfativas, mas para além desse sistema rudimentar de compreensão, partilhado com outros mamíferos e mesmo com outras espécies animais, temos na visão uma sofisticada ferramenta para interpretar o mundo e dar vazão à nossa capacidade de concatenação lógica. Antes que o leitor se pergunte sobre a visão e sua função em outras criaturas, e acerca do que nos diferencia destas nesse plano de percepção, é preciso que deixemos clara a gênese de nossa sofisticação visual.

 

 

tarsio

Carlito strychta, espécie de Társio (pequeno primata) endêmica das Filipinas. Um exemplo da sofisticação ocular dos primatas

Ela tem origem – de acordo com a maioria dos primatologistas – na necessidade de diferenciar alimentos comestíveis daqueles impróprios para o consumo (uma tarefa complexa. Basta que se imagine todos os tons de verde que revelam os diferentes estágios de maturação de uma fruta, por exemplo) e na urgência de identificar ameaças e escapar de potenciais predadores, ou seja, naquilo que existe de mais fundamental na existência: a conservação de si mesmo. O resultado da evolução contínua dessas características é o olho humano, capaz de perceber uma gama de cores, movimentos e profundidade inigualáveis no reino animal. Felinos são os melhores em enxergar movimento. Ninguém supera a visão em cores dos polvos e lulas, e as aves são campeãs no quesito percepção de profundidade. Mas nenhuma criatura alia tão bem todas essas variáveis quanto os humanos. Portanto, é natural que todos nós tenhamos grande familiaridade e domínio do que se convenciona chamar “léxico visual”. Será mesmo?

 

 

Na realidade, não. Ainda que sejamos criaturas primordialmente visuais, nem todos nós somos visualmente alfabetizados. Embora todos, com raras exceções, sejamos capazes de ver, uma pessoa alfabetizada visualmente é alguém capaz de ver algo além do simples enxergar e compreender significados complexos contidos naquilo que se vê. E como na alfabetização verbal, a visual também possui níveis de excelência – existem diferenças profundas entre quem sabe ler e escrever e um erudito. Entretanto, ambos os extremos estão conectados pela cultura. Pois é somente pela via cultural, que possibilita a aquisição de educação (aqui compreendida no sentido mais amplo do termo) e de repertórios. Assim, as semelhanças essenciais das formas de comunicação e sua ligação intrínseca com a cultura são a chave para compreender como se dão seus usos, como se definem seus propósitos e como é possível direcionar seu uso.

 

 

Na comunicação visual, como nos outros processos comunicativos, o esquema básico é formado por remetente e destinatário que se utilizam de um canal para transmitir uma mensagem. Todavia, existem fatores que estabelecem fortes relações entre o canal e a mensagem. A via de transmissão, mais que o intento do que transmitir, acaba sendo o principal componente para o entendimento, já que “O meio é a mensagem”, como disse McLuhan. A captação da mensagem depende fundamentalmente da intersecção entre a compreensão de emissor e destinatário acerca do conjunto de significados possíveis de determinado signo. Quanto maior nossa familiaridade com o signo e com o entorno sócio cultural de significados a este atribuídos, maior é o repertório interpretativo que temos sobre ele.

 

 

Tais interpretações estão diretamente relacionadas com a cultura em suas mais variadas nuances.  Assim, quanto maior o repertório, menor o número de destinatários capazes de encontrar significações para a mensagem (tracemos aqui um paralelo com a literatura e suas referências). Ao mesmo tempo, quanto menor o repertório – ou seja, quanto maior for a simplicidade do signo – maior é o número de destinatários capazes de interpretar a mensagem, ou os signos que a compõem:  Eis a diferença entre o olho altamente treinado, capaz, por exemplo, de identificar as nuances e simbologias em um logotipo sofisticado, e o indivíduo condicionado a ler apenas as formas mais simples de comunicação visual, como por exemplo as cores alternadas de um semáforo.

 

 

Uma história de cultura

 

 

Pinturas rupestres no Parque Nacional Serra da Capivara, São Raimundo nonato, Piauí

Pinturas rupestres no Parque Nacional Serra da Capivara, São Raimundo nonato, Piauí

Os signos visuais têm uma longa história, e são em si mesmos, a gênese da cultura reconhecível. Podemos não saber como eram as línguas faladas na pré-história, mas todos nós somos capazes de reconhecer os bisões, leões, rinocerontes e cavalos representados na arte rupestre de sítios arqueológicos como Lascaux, Altamira, Serra da Capivara e outros. Talvez nunca saibamos quais eram as palavras entoadas nas cerimônias consagradas em Göbekli Tepe, o mais antigo templo do mundo, mas certamente associamos os entalhes em suas colunas com os signos atuais: linhas verticais terminadas em ponta, simbolizando ascensão, o círculo como representação do infinito, as figuras humanas estilizadas estabelecendo posições de adoração que observamos ainda hoje em diversos cultos das mais variadas religiões.

 

 

Coluna antropomórfica no templo de Göbekli Tepe, Örencik, província de Şanlıurfa, na Turquia

Coluna antropomórfica no templo de Göbekli Tepe, Örencik, província de Şanlıurfa, na Turquia. Foto por Vincent J. Musi

Não havia agricultura ou domesticação de animais quando este complexo foi erigido, há mais de 11 mil anos. A escrita teria de esperar muito para surgir. Mas existiam símbolos, facilmente reconhecíveis, que diziam como se portar diante do sagrado. As pessoas que construíram Göbekli Tepe e as que decoraram as grutas de Altamira eram nossos iguais, altamente cognitivos e sofisticados, comunicando-se de um modo mais semelhante ao nosso do que se pode supor à primeira vista. Talvez a maior diferença entre nós e eles seja o fato de que, na distante pré-história, todos os membros da sociedade eram capazes de produzir signos e compreender perfeitamente o significado das imagens que os cercavam – paleontólogos encontraram, por exemplo, evidências da presença de crianças no processo de pintura da caverna de Chauvet, na França, como podemos ver no belo documentário “A Caverna dos Sonhos Esquecidos”, de Werner Herzog. Hoje, a maior parte de nós é capaz de ver, mas nem todos podem gabar-se de compreender o que o visual em uma sociedade que valoriza tanto a imagem como a atual.

 

 

Tal constatação causa profundo estranhamento quando pensamos que uma profusão de imagens bombardeia o cidadão comum criando espaços para induzir gostos, preferências e interpretações, ao mesmo tempo em que esses cidadãos são incapazes de conduzir uma cuidadosa análise crítica daquilo que permeia todos os espaços cotidianos.  Hoje em dia, a comunicação visual tornou-se algo hermético, e em contextos sociais onde a conexão direta com a linguagem visual não é clara, o que se observa é uma grande lacuna. Quando a tarefa é comunicar produtos de complexo entendimento, essa deficiência fica ainda mais ressaltada nos resultados finais das peças gráficas, que necessitam do conhecimento de conceitos básicos da sintaxe visual.

 

 

"Landscape with Steer", Jackson Pollock, circa 1935-37

“Landscape with Steer”, Jackson Pollock, circa 1935-37

Tomemos, por exemplo, a definição de Donis a Dondis: “visualizar é ser capaz de formar imagens mentais”, através da qual percebemos que a compreensão do léxico visual não está simplesmente relacionada ao se lembrar de características visuais em determinada situação (como decorar uma rota), mas também de criar, através de processos cognitivos a visão de uma coisa desconhecida: O processo de criar imagens mentais que contribui para a busca de soluções práticas utilizando unicamente conceitos. Por essa linha de raciocínio, a evolução da linguagem começa em imagens que representam o entendimento humano a cerca do ambiente que nos cerca, a expressão da natureza submetida ao filtro do olhar, que encontra eco nas palavras de Jackson Pollock: “Eu não pinto a natureza, eu sou a natureza”.

 

 

"Painel dos Leões", reprodução de mural localizado na caverna de Chauvet, França.

“Painel dos Leões”, reprodução de mural localizado na caverna de Chauvet, França.

Essa expressão “evolui” e avança para pictogramas, ideogramas, unidades fonéticas até finalmente chegar ao alfabeto, considerado a “matemática do significado”, ainda de acordo com Dondis. A linguagem verbal, poderosa ferramenta de comunicação, não se encerra e nem nunca se encerrou em si mesma. Pelo contrário, ao que parece, nossa sociedade ultra sofisticada parece estar traçando o “caminho de volta” intensificando cada vez mais a comunicação visual, e suprimindo, sempre que possível, a linguagem escrita.

 

 

Um código que depende do observador

 

 

Talvez, a lógica por trás dessa “regressão”, esteja ligada à natureza “memética” (aqui entendida no sentido biológico do termo) da imagem. Assim, a linguagem imagética, visual, seria também uma forma mais “pura”, livre de distorções, uma vez que potencialmente universal e infinitamente replicável através dos mesmos componentes simples e de fácil reconhecimento.  Todavia, o problema primordial com a utilização em larga escala de uma forma de linguagem poderosa a ponto de ser imediatamente reconhecida, mais ou menos independentemente de contextos culturais distintos, está na sua utilização elitizada.

 

 

"Narciso", Caravaggio, circa 1594-96

“Narciso”, Caravaggio, circa 1594-96

Na linguagem visual, os elementos não podem ser manipulados como na linguagem verbal.  Pois ao contrário do que ocorre com o alfabeto, e mesmo com as formas de escrita oriundas de sistemas embasados em ideogramas, como os “kanji” japoneses, os elementos visuais não possuem significados preestabelecidos. Seus significados dependem do contexto em que estão inseridos, e, mesmo assim, com grande variedade de interpretações, cada uma delas relacionada ao contexto sócio cultural do receptor da mensagem contida no conjunto de signos. Interpretar o código visual é de certa forma, como apreciar um Caravaggio: as sombras podem ocultar partes de corpos e revelar nuances de tecidos, mas o observador depreende, por meio da visão, as formas ocultas que a luz não toca. Admitimos que para isso é necessário algum conhecimento, mesmo que “inato”, da anatomia dos corpos e da constituição dos objetos, e esse conhecimento é necessariamente anterior à visão da pintura.

 

 

Eis aí a grande dificuldade do trabalho de alfabetização visual: a vasta gama de conceitos a serem compreendidos para que se desenvolva a capacidade de interpretar diferentes signos visuais. Para tanto, há que se ter, além de um íntimo contato com a cultura vigente onde se produz o léxico visual, a capacidade de entender o entorno, o ambiente, pátria primeira do significado. O fator preponderante para a aquisição de cultura visual é cultivar o hábito de ver e apreciar tudo o que nos rodeia. Familiarizar-se com a  semiótica, “saber muito antigo, que estuda os modos como o homem significa o que o rodeia.”, como afirma Luís Carmelo.

 

 

"Blue segment", Wassily Kandinsky, 1921

“Blue segment”, Wassily Kandinsky, 1921

Assim, em um paradigma no qual o acesso às diferentes manifestações culturais é restrito por questões econômicas e relativas à manutenção da “ordem” social, apesar de utilizarmos a linguagem visual cada vez com mais intensidade, é patente que a grande maioria das pessoas que não possuem formação nas áreas relacionadas à comunicação visual é composta por analfabetos visuais “funcionais”.  O léxico, ainda que de fácil aprendizagem e reconhecimento intercultural possível, precisa ser ensinado, e muitas vezes sequer se sabe acerca da necessidade de aprendizado.  A linguagem visual, apesar de cada vez mais presente, é hoje mais restrita em seu entendimento do que talvez jamais o tenha sido.  É como se vivêssemos cercados por palavras sem, no entanto, sermos capazes de ordena-las e formar frases. E o paralelo com a alfabetização escrita não se encerra aí: o erudito, o bem versado na língua – seja ela qual for -, acaba algumas vezes caminhando para um uso irresponsável do léxico visual. Isso é motivado pela ignorância, compulsória ou deliberada, em relação à imagem como forma de expressão: “Há cegos de nascença. Cegos física ou espiritualmente. Para ambos, a pintura é nociva. Há homens em estado letárgico que podem despertar, se não fecharem os olhos deliberadamente” – Kandinski.

 

 

Esse despertar se faz urgente, necessário: Nunca antes na história da humanidade, fomos submetidos a tanta carga visual como agora. Os meios são cada vez mais poderosos e não param de se multiplicar. Hoje é possível de se obter informações visuais produzidas pelo homem em quase qualquer lugar do planeta. Mas nem por isso a comunicação visual tornou-se mais madura ou fácil. A relação continua mal resolvida e cada vez mais incompreendida, especialmente para seres humanos que, apesar de primordialmente visuais, se encontram confrontados com uma linguagem com a qual não possuem qualquer familiaridade. E a julgar pelo ritmo no qual as coisas acontecem, as próximas gerações serão reféns de um código cuja essência desconhecem, já que a entre a percepção da imagem e a atribuição de significado existe uma lacuna, que deveria ser preenchida pelo processo de alfabetização visual.

 

 

Arte Madu (ou Martu), proveniente do deserto ocidental australiano

Arte Madu (ou Martu), proveniente do deserto ocidental australiano

Este, contudo não é simples e nem de fácil implementação, pois a representação gráfica não é inata, precisa ser aprendida. Para os Mardu, aborígenes da Austrália central, as representações pictóricas são uma constante no cotidiano, seguindo uma linha direta desde as primeiras ocupações da Oceania. Porém, para decodificar uma simples foto, essas pessoas necessitam de um processo de aprendizagem da representação sintética da dimensão e da perspectiva fotográficas, ausentes na arte rupestre do entorno indígena australiano. Mas para o homem contemporâneo, sobretudo o habitante do contexto urbano, o fato de ver não está relacionado necessariamente ao compreender.

 

 

Na maioria dos casos, o fato de gostar ou não de uma imagem se dá por gostos pessoais, influenciados largamente por convenções sociais, usos e costumes, do que propriamente pelo uso de critérios adequados a uma boa comunicação – simplesmente por serem estes últimos, desconhecidos. Esse desconhecimento pode ser fruto tanto do desinteresse quanto, mais comumente, da “sonegação” deliberada de informações acerca do processo de compreensão do léxico visual.

 

 

O sistema visual geral, básico e perceptível a todos os seres humanos existe, mas está longe de ser simples. Para que o resgate de sua compreensão caminhe lado a lado com a crescente utilização da imagem para a comunicação de conceitos, é preciso que as pessoas busquem incansavelmente o conhecimento necessário à construção – e compreensão – de mensagens visuais claras e universais. Para tanto, todavia (e é essa a exortação presente neste artigo) é preciso que as “elites” da era da informação, compostas, sobretudo, por profissionais familiarizados com a comunicação visual estejam dispostas a difundir e partilhar seu conhecimento, e ensinar a ver.  E isso por uma questão de sobrevivência geral.

 

 

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