Exibindo as publicações da categoria Sem categoria

Alfabetização e analfabetismo visual: o futuro do léxico mais antigo de todos

Publicado em 24 de novembro de 2016 na categoria Sem categoria

“The Liberator”, René Magritte, 1947.

 

 

Vivemos em um tempo no qual a máxima-clichê “uma imagem vale mais que mil palavras” tem seu sentido ampliado ao máximo alcance. Somos uma sociedade que ultra valoriza a imagem, seja ela a que nos é apresentada ou a que produzimos através de nossa própria expressão. Uma profusão de imagens bombardeia o cidadão comum diariamente, criando espaços para induzir gostos, preferências e interpretações; julgamentos e conclusões, mais das vezes, sem a possibilidade de uma análise crítica daquilo a que somos expostos.

 

 

A conexão direta com a linguagem visual parece ser imprescindível para a existência humana no século XXI – a era da informação, e por excelência, da informação que se apresenta primeiramente de forma visual -, mas o que notamos, cada vez mais marcadamente, é uma grande lacuna entre a mensagem e seu receptor, principalmente quando a tarefa é comunicar através do léxico visual. De complexo entendimento, essa deficiência fica ainda mais ressaltada nos resultados finais das peças gráficas. A incapacidade do ser humano médio do início do terceiro milênio em compreender conceitos básicos da sintaxe visual é o mote que nos leva a discutir questões sobre a importância do alfabetismo visual, e, também, a tentar mensurar as consequências do analfabetismo imagético.

 

 

Para dar a real dimensão ao problema, é preciso destacar a importância fundamental e primordial comunicação visual nas relações humanas. Engana-se quem presume que a primeira forma de comunicação humana é a fala. As habilidades de nos exprimirmos por meio do som, e criar códigos complexos através dele são impressionantes – e talvez únicas na natureza – mas o som não é, e nem poderia ser, nossa manifestação primordial da racionalidade e consequente capacidade de criar cultura.

 

 

Ao contrário do que pode parecer óbvio, nossa sofisticação linguística tem origem no universo imagético. Apesar do choro do recém-nascido ser nossa primeira expressão reconhecível no mundo exterior, nascemos incapazes de articular palavras, e em nossos primeiros anos, nos é impossível depreender e concatenar ideias a partir da fala. Todavia, antes de tudo, até mesmo da racionalidade que nos define, o ser humano é uma criatura visual. E a origem dessa percepção é o que a torna tão fundamental.

 

 

Primeiras visões

 

 

Nossas primeiras impressões do mundo podem até ser tácteis e olfativas, mas para além desse sistema rudimentar de compreensão, partilhado com outros mamíferos e mesmo com outras espécies animais, temos na visão uma sofisticada ferramenta para interpretar o mundo e dar vazão à nossa capacidade de concatenação lógica. Antes que o leitor se pergunte sobre a visão e sua função em outras criaturas, e acerca do que nos diferencia destas nesse plano de percepção, é preciso que deixemos clara a gênese de nossa sofisticação visual.

 

 

tarsio

Carlito strychta, espécie de Társio (pequeno primata) endêmica das Filipinas. Um exemplo da sofisticação ocular dos primatas

Ela tem origem – de acordo com a maioria dos primatologistas – na necessidade de diferenciar alimentos comestíveis daqueles impróprios para o consumo (uma tarefa complexa. Basta que se imagine todos os tons de verde que revelam os diferentes estágios de maturação de uma fruta, por exemplo) e na urgência de identificar ameaças e escapar de potenciais predadores, ou seja, naquilo que existe de mais fundamental na existência: a conservação de si mesmo. O resultado da evolução contínua dessas características é o olho humano, capaz de perceber uma gama de cores, movimentos e profundidade inigualáveis no reino animal. Felinos são os melhores em enxergar movimento. Ninguém supera a visão em cores dos polvos e lulas, e as aves são campeãs no quesito percepção de profundidade. Mas nenhuma criatura alia tão bem todas essas variáveis quanto os humanos. Portanto, é natural que todos nós tenhamos grande familiaridade e domínio do que se convenciona chamar “léxico visual”. Será mesmo?

 

 

Na realidade, não. Ainda que sejamos criaturas primordialmente visuais, nem todos nós somos visualmente alfabetizados. Embora todos, com raras exceções, sejamos capazes de ver, uma pessoa alfabetizada visualmente é alguém capaz de ver algo além do simples enxergar e compreender significados complexos contidos naquilo que se vê. E como na alfabetização verbal, a visual também possui níveis de excelência – existem diferenças profundas entre quem sabe ler e escrever e um erudito. Entretanto, ambos os extremos estão conectados pela cultura. Pois é somente pela via cultural, que possibilita a aquisição de educação (aqui compreendida no sentido mais amplo do termo) e de repertórios. Assim, as semelhanças essenciais das formas de comunicação e sua ligação intrínseca com a cultura são a chave para compreender como se dão seus usos, como se definem seus propósitos e como é possível direcionar seu uso.

 

 

Na comunicação visual, como nos outros processos comunicativos, o esquema básico é formado por remetente e destinatário que se utilizam de um canal para transmitir uma mensagem. Todavia, existem fatores que estabelecem fortes relações entre o canal e a mensagem. A via de transmissão, mais que o intento do que transmitir, acaba sendo o principal componente para o entendimento, já que “O meio é a mensagem”, como disse McLuhan. A captação da mensagem depende fundamentalmente da intersecção entre a compreensão de emissor e destinatário acerca do conjunto de significados possíveis de determinado signo. Quanto maior nossa familiaridade com o signo e com o entorno sócio cultural de significados a este atribuídos, maior é o repertório interpretativo que temos sobre ele.

 

 

Tais interpretações estão diretamente relacionadas com a cultura em suas mais variadas nuances.  Assim, quanto maior o repertório, menor o número de destinatários capazes de encontrar significações para a mensagem (tracemos aqui um paralelo com a literatura e suas referências). Ao mesmo tempo, quanto menor o repertório – ou seja, quanto maior for a simplicidade do signo – maior é o número de destinatários capazes de interpretar a mensagem, ou os signos que a compõem:  Eis a diferença entre o olho altamente treinado, capaz, por exemplo, de identificar as nuances e simbologias em um logotipo sofisticado, e o indivíduo condicionado a ler apenas as formas mais simples de comunicação visual, como por exemplo as cores alternadas de um semáforo.

 

 

Uma história de cultura

 

 

Pinturas rupestres no Parque Nacional Serra da Capivara, São Raimundo nonato, Piauí

Pinturas rupestres no Parque Nacional Serra da Capivara, São Raimundo nonato, Piauí

Os signos visuais têm uma longa história, e são em si mesmos, a gênese da cultura reconhecível. Podemos não saber como eram as línguas faladas na pré-história, mas todos nós somos capazes de reconhecer os bisões, leões, rinocerontes e cavalos representados na arte rupestre de sítios arqueológicos como Lascaux, Altamira, Serra da Capivara e outros. Talvez nunca saibamos quais eram as palavras entoadas nas cerimônias consagradas em Göbekli Tepe, o mais antigo templo do mundo, mas certamente associamos os entalhes em suas colunas com os signos atuais: linhas verticais terminadas em ponta, simbolizando ascensão, o círculo como representação do infinito, as figuras humanas estilizadas estabelecendo posições de adoração que observamos ainda hoje em diversos cultos das mais variadas religiões.

 

 

Coluna antropomórfica no templo de Göbekli Tepe, Örencik, província de Şanlıurfa, na Turquia

Coluna antropomórfica no templo de Göbekli Tepe, Örencik, província de Şanlıurfa, na Turquia. Foto por Vincent J. Musi

Não havia agricultura ou domesticação de animais quando este complexo foi erigido, há mais de 11 mil anos. A escrita teria de esperar muito para surgir. Mas existiam símbolos, facilmente reconhecíveis, que diziam como se portar diante do sagrado. As pessoas que construíram Göbekli Tepe e as que decoraram as grutas de Altamira eram nossos iguais, altamente cognitivos e sofisticados, comunicando-se de um modo mais semelhante ao nosso do que se pode supor à primeira vista. Talvez a maior diferença entre nós e eles seja o fato de que, na distante pré-história, todos os membros da sociedade eram capazes de produzir signos e compreender perfeitamente o significado das imagens que os cercavam – paleontólogos encontraram, por exemplo, evidências da presença de crianças no processo de pintura da caverna de Chauvet, na França, como podemos ver no belo documentário “A Caverna dos Sonhos Esquecidos”, de Werner Herzog. Hoje, a maior parte de nós é capaz de ver, mas nem todos podem gabar-se de compreender o que o visual em uma sociedade que valoriza tanto a imagem como a atual.

 

 

Tal constatação causa profundo estranhamento quando pensamos que uma profusão de imagens bombardeia o cidadão comum criando espaços para induzir gostos, preferências e interpretações, ao mesmo tempo em que esses cidadãos são incapazes de conduzir uma cuidadosa análise crítica daquilo que permeia todos os espaços cotidianos.  Hoje em dia, a comunicação visual tornou-se algo hermético, e em contextos sociais onde a conexão direta com a linguagem visual não é clara, o que se observa é uma grande lacuna. Quando a tarefa é comunicar produtos de complexo entendimento, essa deficiência fica ainda mais ressaltada nos resultados finais das peças gráficas, que necessitam do conhecimento de conceitos básicos da sintaxe visual.

 

 

"Landscape with Steer", Jackson Pollock, circa 1935-37

“Landscape with Steer”, Jackson Pollock, circa 1935-37

Tomemos, por exemplo, a definição de Donis a Dondis: “visualizar é ser capaz de formar imagens mentais”, através da qual percebemos que a compreensão do léxico visual não está simplesmente relacionada ao se lembrar de características visuais em determinada situação (como decorar uma rota), mas também de criar, através de processos cognitivos a visão de uma coisa desconhecida: O processo de criar imagens mentais que contribui para a busca de soluções práticas utilizando unicamente conceitos. Por essa linha de raciocínio, a evolução da linguagem começa em imagens que representam o entendimento humano a cerca do ambiente que nos cerca, a expressão da natureza submetida ao filtro do olhar, que encontra eco nas palavras de Jackson Pollock: “Eu não pinto a natureza, eu sou a natureza”.

 

 

"Painel dos Leões", reprodução de mural localizado na caverna de Chauvet, França.

“Painel dos Leões”, reprodução de mural localizado na caverna de Chauvet, França.

Essa expressão “evolui” e avança para pictogramas, ideogramas, unidades fonéticas até finalmente chegar ao alfabeto, considerado a “matemática do significado”, ainda de acordo com Dondis. A linguagem verbal, poderosa ferramenta de comunicação, não se encerra e nem nunca se encerrou em si mesma. Pelo contrário, ao que parece, nossa sociedade ultra sofisticada parece estar traçando o “caminho de volta” intensificando cada vez mais a comunicação visual, e suprimindo, sempre que possível, a linguagem escrita.

 

 

Um código que depende do observador

 

 

Talvez, a lógica por trás dessa “regressão”, esteja ligada à natureza “memética” (aqui entendida no sentido biológico do termo) da imagem. Assim, a linguagem imagética, visual, seria também uma forma mais “pura”, livre de distorções, uma vez que potencialmente universal e infinitamente replicável através dos mesmos componentes simples e de fácil reconhecimento.  Todavia, o problema primordial com a utilização em larga escala de uma forma de linguagem poderosa a ponto de ser imediatamente reconhecida, mais ou menos independentemente de contextos culturais distintos, está na sua utilização elitizada.

 

 

"Narciso", Caravaggio, circa 1594-96

“Narciso”, Caravaggio, circa 1594-96

Na linguagem visual, os elementos não podem ser manipulados como na linguagem verbal.  Pois ao contrário do que ocorre com o alfabeto, e mesmo com as formas de escrita oriundas de sistemas embasados em ideogramas, como os “kanji” japoneses, os elementos visuais não possuem significados preestabelecidos. Seus significados dependem do contexto em que estão inseridos, e, mesmo assim, com grande variedade de interpretações, cada uma delas relacionada ao contexto sócio cultural do receptor da mensagem contida no conjunto de signos. Interpretar o código visual é de certa forma, como apreciar um Caravaggio: as sombras podem ocultar partes de corpos e revelar nuances de tecidos, mas o observador depreende, por meio da visão, as formas ocultas que a luz não toca. Admitimos que para isso é necessário algum conhecimento, mesmo que “inato”, da anatomia dos corpos e da constituição dos objetos, e esse conhecimento é necessariamente anterior à visão da pintura.

 

 

Eis aí a grande dificuldade do trabalho de alfabetização visual: a vasta gama de conceitos a serem compreendidos para que se desenvolva a capacidade de interpretar diferentes signos visuais. Para tanto, há que se ter, além de um íntimo contato com a cultura vigente onde se produz o léxico visual, a capacidade de entender o entorno, o ambiente, pátria primeira do significado. O fator preponderante para a aquisição de cultura visual é cultivar o hábito de ver e apreciar tudo o que nos rodeia. Familiarizar-se com a  semiótica, “saber muito antigo, que estuda os modos como o homem significa o que o rodeia.”, como afirma Luís Carmelo.

 

 

"Blue segment", Wassily Kandinsky, 1921

“Blue segment”, Wassily Kandinsky, 1921

Assim, em um paradigma no qual o acesso às diferentes manifestações culturais é restrito por questões econômicas e relativas à manutenção da “ordem” social, apesar de utilizarmos a linguagem visual cada vez com mais intensidade, é patente que a grande maioria das pessoas que não possuem formação nas áreas relacionadas à comunicação visual é composta por analfabetos visuais “funcionais”.  O léxico, ainda que de fácil aprendizagem e reconhecimento intercultural possível, precisa ser ensinado, e muitas vezes sequer se sabe acerca da necessidade de aprendizado.  A linguagem visual, apesar de cada vez mais presente, é hoje mais restrita em seu entendimento do que talvez jamais o tenha sido.  É como se vivêssemos cercados por palavras sem, no entanto, sermos capazes de ordena-las e formar frases. E o paralelo com a alfabetização escrita não se encerra aí: o erudito, o bem versado na língua – seja ela qual for -, acaba algumas vezes caminhando para um uso irresponsável do léxico visual. Isso é motivado pela ignorância, compulsória ou deliberada, em relação à imagem como forma de expressão: “Há cegos de nascença. Cegos física ou espiritualmente. Para ambos, a pintura é nociva. Há homens em estado letárgico que podem despertar, se não fecharem os olhos deliberadamente” – Kandinski.

 

 

Esse despertar se faz urgente, necessário: Nunca antes na história da humanidade, fomos submetidos a tanta carga visual como agora. Os meios são cada vez mais poderosos e não param de se multiplicar. Hoje é possível de se obter informações visuais produzidas pelo homem em quase qualquer lugar do planeta. Mas nem por isso a comunicação visual tornou-se mais madura ou fácil. A relação continua mal resolvida e cada vez mais incompreendida, especialmente para seres humanos que, apesar de primordialmente visuais, se encontram confrontados com uma linguagem com a qual não possuem qualquer familiaridade. E a julgar pelo ritmo no qual as coisas acontecem, as próximas gerações serão reféns de um código cuja essência desconhecem, já que a entre a percepção da imagem e a atribuição de significado existe uma lacuna, que deveria ser preenchida pelo processo de alfabetização visual.

 

 

Arte Madu (ou Martu), proveniente do deserto ocidental australiano

Arte Madu (ou Martu), proveniente do deserto ocidental australiano

Este, contudo não é simples e nem de fácil implementação, pois a representação gráfica não é inata, precisa ser aprendida. Para os Mardu, aborígenes da Austrália central, as representações pictóricas são uma constante no cotidiano, seguindo uma linha direta desde as primeiras ocupações da Oceania. Porém, para decodificar uma simples foto, essas pessoas necessitam de um processo de aprendizagem da representação sintética da dimensão e da perspectiva fotográficas, ausentes na arte rupestre do entorno indígena australiano. Mas para o homem contemporâneo, sobretudo o habitante do contexto urbano, o fato de ver não está relacionado necessariamente ao compreender.

 

 

Na maioria dos casos, o fato de gostar ou não de uma imagem se dá por gostos pessoais, influenciados largamente por convenções sociais, usos e costumes, do que propriamente pelo uso de critérios adequados a uma boa comunicação – simplesmente por serem estes últimos, desconhecidos. Esse desconhecimento pode ser fruto tanto do desinteresse quanto, mais comumente, da “sonegação” deliberada de informações acerca do processo de compreensão do léxico visual.

 

 

O sistema visual geral, básico e perceptível a todos os seres humanos existe, mas está longe de ser simples. Para que o resgate de sua compreensão caminhe lado a lado com a crescente utilização da imagem para a comunicação de conceitos, é preciso que as pessoas busquem incansavelmente o conhecimento necessário à construção – e compreensão – de mensagens visuais claras e universais. Para tanto, todavia (e é essa a exortação presente neste artigo) é preciso que as “elites” da era da informação, compostas, sobretudo, por profissionais familiarizados com a comunicação visual estejam dispostas a difundir e partilhar seu conhecimento, e ensinar a ver.  E isso por uma questão de sobrevivência geral.

 

 

Design de Serviços: Indo Além da Forma*

Publicado em 26 de outubro de 2016 na categoria Sem categoria

Foto: Renato Stockler

Uma identidade visual “descoladinha” não basta para que uma empresa seja de fato inovadora. Não basta se vestir de forma a mostrar uma imagem que rompe com o modelo tradicional do setor e ter um comportamento antiquado. Essa prática, pode ser um tiro no pé, pois há um gap de percepção imenso na relação expectativa x realidade, que dificilmente será superado. O contrário pode ser até mais positivo para a marca: algo que pareça comum, mas que na experiência de uso se mostre novo e surpreendente.

 

“Quando um produto ou serviço é inovador ele causa impacto na vida das pessoas e transforma para sempre a forma de pessoas viverem e trabalharem. Inovação é valor percebido.” – Tim Brow, in “Design Thinking”
O que me motivou a escrever essa reflexão foi uma experiência recente que tive com uma marca relativamente nova do setor de saúde, um laboratório de exames clínicos. A marca em questão foi lançada com um visual bem novo dentro de um setor de marcas ( e identidades visuais) bastante conservadoras. Desde nome até logo, passando pela paleta de cores tudo é diferente. Criou no meu imaginário uma imagem de um lugar diferente, agradável, mais humano do que os ambientes de minhas experiências anteriores. Mas a expectativa que construí foi severamente quebrada.

 

Já no espaço físico se nota a mesma configuração de atendimento de todos os outros, talvez um pouco piorada inclusive. Apesar de frases inspiradoras em letras grandes plotadas nas paredes, não me parece que houve uma reflexão sobre uma forma mais amigável de promover o atendimento, o layout é o de sempre. O processo é mais do mesmo: senha difícil de localizar, atendente com uniforme de jersey já te fala que vai demorar antes mesmo do bom dia, café ruim, gente em longas esperas com expressões entediadas, sentadas em fileiras de longarinas horrorosas, a tv ligada na globo.

 

Essa experiência me lembrou o caso da Companhia aérea Gol. Quando a Gol se lançou no Mercado nacional era muito diferente das outras companhias aéreas, bem fora do padrão. A começar pelo nome que fugia dos tradicionais, derivados das palavras via, viação ou transporte (VARIG, VASP, TRANSBRASIL, TAM). O laranja, o logo, os uniformes das aeromoças eram lindos, tudo lindo. Até a estampa das aeronaves eram mais cool que as da concorrência. Doce ilusão. Logo percebemos que fora o visual e o fato de não ter lanche, a Gol era igual ou pior que a concorrência. Isso traz a pergunta, até quando o design será visto apenas como algo visual?

 

Dá pra fazer diferente? Claro que sim. O primeiro passo é reconhecer que não basta parecer inovador. Precisa fazer diferente. O design não deve ser usado apenas na parte estética da marca. No setor de serviços, há a disciplina design de serviços. A missão dessa área do design é criação de experiências positivas para os usuários, que ao mesmo tempo não deixem de ser rentáveis para as organizações, muitas vezes até otimizando os processos, o que resulta em maior rentabilidade. Segundo Simone Souza, designer de serviços e professora na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), “O projeto auxilia os empresários a obterem uma compreensão abrangente e empática sobre o cenário no qual estão inseridos e, principalmente, sobre as reais necessidades e desejos de seus atuais e potenciais clientes. De modo criativo e prático, o design de serviços integra as partes interessadas, do funcionário aos clientes finais, para criar soluções mais eficientes. Investir em design de serviços é investir e acreditar no potencial criativo de todas as partes que fazem e são a razão de existir do serviço, promovendo um aumento potencial de diferenciação e competitividade da empresa frente ao mercado.”

 

nubank-envelope

Imagem divulgação do cartão Nubank “Para quem sabe que tecnologia e design são melhores do que agências e papelada “

 

Uma empresa que tem surpreendido no quesito experiência com a marca é o cartão de crédito Nubank. Além de um serviço diferenciado desde o cadastro, a comunicação e interação com os clientes é informal e utiliza todas as redes sociais. Contra os tradicionais extratos impressos, o controle do cartão é todo feito via aplicativo. Mas o maior destaque é nas respostas às reclamações e pedidos. Um bom exemplo é o de um cliente que escreveu para a empresa pedindo um novo cartão, já que sua cachorra havia comido o primeiro. A resposta da empresa foi uma carta escrita a mão, e junto com o cartão, a empresa enviou um brinquedo de morder para cachorros. Na carta lia-se: “Infelizmente, não temos um cartão comestível, mas como você disse que a cor roxa é sedutora, achei que a Belinha adoraria um brinquedo da mesma cor. Ela poderá mordê-lo muito e terá comidinhas de brinde – que você poderá colocar dentro dele.” A postagem no Facebook com a história viralizou: teve mais de 3 mil compartilhamentos em menos de 24 horas. Mídia espontânea gerada através de um posicionamento consistente de marca.

 

Outro caso interessante sobre como o design de serviços pode impactar positivamente o consumidor e colaborar para fidelizá-lo é o da marca “Contém 1g”. Com pontos de atendimento projetados para simular um estúdio de maquiagem completo, a empresa de cosméticos prima pela inovação em termos de ambientação e atendimento, com funcionárias treinadas para agir como verdadeiras especialistas no assunto. Recentemente, ouvi o relato de uma consumidora, mãe de primeira viagem, que procurou a loja de cosméticos em busca de uma base, que usaria para disfarçar as olheiras – fruto das famosas noites sem dormir, vividas por tantas mães. Logo, a vendedora sugeriu um corretivo, mais adequado para o seu momento de vida. Rapidamente, a funcionária fez uma série de perguntas, através das quais identificou o tom e tipo de pele da consumidora, e aplicou o produto mais adequado para o caso, enquanto fazia a aplicação, a vendedora ressaltou a importância de uma maquiagem mais suave nos olhos para amenizar a aparência cansada, indicando e aplicando um lápis para os olhos. Isso fez com que a consumidora comprovasse na prática a eficácia da sugestão. O resultado do atendimento diferenciado foi a venda de não apenas um, mas dois produtos.

 

 

Unidade Contém 1g no Shopping Anália Franco, em São Paulo

 

 

O exemplo da “Contém 1g” demonstra bem como a aposta em vendas consultivas gera destaque em um universo no qual a inovação não costuma ser aplicada no campo das vendas diretas. Outras empresas do ramo de cosméticos se limitam a expor produtos e no máximo auxiliar o consumidor na escolha de cores ou formulações específicas. Nada que se aproxime do teste e aplicação dos produtos, expertise das vendedoras e o ambiente confortável e distante do que se espera de uma loja convencional. Transpondo a experiência de vendas porta a porta (nicho original da marca) – na qual representantes estabelecem uma relação horizontal e intimista com os clientes – para o ponto de atendimento, a “Contém 1g” inova e acerta o alvo. Ponto para o bom design de serviços.

 

Empatia, esse é o nome do jogo. Entender as motivações, expectativas, medos, anseios e dificuldades do usuário, prestar atenção, mapear as emoções envolvidas. É preciso se permitir questionar todo o sistema, o status quo do segmento, quebrar paradigmas.

 

O mundo não precisa de um novo laboratório, uma nova academia de ginástica ou outra seguradora. O mundo precisa de mais experiências enriquecedoras, contatos inesquecíveis, pessoas se relacionando com pessoas. Chega de tentar enquadrar as pessoas em sistemas, esquemas, processos que não levam em conta a complexidade das emoções humanas.

 

Simone Souza ressalta que “ao investir no planejamento consciente de seus serviços, a empresa passa a ser mais empática e a responder de maneira mais eficiente e eficaz às necessidades e desejos de seus consumidores, gerando e garantindo assertividade, diferenciação e lucratividade para o negócio.”

 

“A marca não é aquilo que você diz que é. É aquilo que eles dizem que é.” – Marty Neumeier, The Brand Gap.

 
*Com a colaboração de Gustavo Zoe

Curso de Identidade Visual – Conteúdo

Publicado em 12 de março de 2015 na categoria Branding,Design,Evento,Marca,Sem categoria

O curso tem como objetivo apresentar e capacitar o aluno na pesquisa, conceituação e desenvolvimento de sistemas completos de identidade visual, utilizando linguagem técnica, conhecimentos jurídicos e postura profissional.
Para que vocês tenham um panorama melhor do que será contemplado nessas 6 aulas, preparamos um informativo com os tópicos abordados em cada um desses encontros.
Qualquer dúvida, por favor entre em contato com a gente através do e-mail:
fabrica@ideiasbrasileiras.com.br

Estrutura_Cs6-02

16 ORGANIZAÇÕES DO 3º SETOR QUE SABEM A IMPORTÂNCIA DO LOGO

Publicado em 20 de outubro de 2014 na categoria Branding,Design,Marca,Sem categoria

regua

O que esses logos têm em comum? Seja pelo uso inteligente e consistente da identidade visual, pela eficiência da comunicação, pela ousadia ou pela força conquistada, essas 16 organizações do terceiro setor e negócios sociais têm uma marca emocional que se expressa usando os sentidos e as emoções. Bom design é síntese.
Fizemos uma seleção de logos que têm qualidade no quesito design de identidade visual. Na escolha, nós atentamos apenas a aspectos estéticos de ONGs ou organizações que trabalhem exclusivamente com o terceiro setor. Excluímos as fundações cujas marcas são derivadas de empresas privadas como o lindo logo da CPFL Cultura _este será assunto para um próximo artigo.

Na leva das organizações “recém-nascidas”, destacamos a Máquina do Bem, o Cidade Democrática e o Minha Sampa. O fundador da Máquina do Bem, Thiago Crucciti considerou primordial entrar com uma marca bem construída e com unidade na comunicação. “A marca reflete o que a empresa é. O principal objetivo de um brand designer é dar forma à verdade por trás daquela marca. Nossa marca é prioridade porque ela diz quem somos e me lembra todos os dias para onde estamos indo.”

 

maquinadobem

Rodrigo Bandeira, do Cidade Democrática, investe parte dos recursos dos projetos em design. O Mapa dos Sonhos da Vila Pompeia é um exemplo do design na materialização de ideias. Para conhecer este projeto é so clicar aqui: https://www.behance.net/gallery/13959761/Mapa-dos-Sonhos-da-Vila-Pompeia

A Artemisia acaba de passar por um processo de redesign. Sua identidade foi totalmente renovada, novos símbolo, cores e sistema gráfico. A beleza e coesão da nova imagem transmitem positivismo e credibilidade. O design é tão importante para esta organização que o redesenho está sendo apresentado com destaque na home do site (http://www.artemisia.org.br/)                            artemisia2

“Mudamos a nossa identidade visual para exprimir a nossa evolução, expressar nossa personalidade _que une a ousadia da nova geração e a experiência de quem é pioneira no Brasil_, e anunciar nossas aspirações para o futuro. A nossa nova marca aponta para o futuro que podemos construir. A grande seta, que representa a letra ‘A’, traduz esse movimento ascendente e foi construída com seis partes, de cores intensas, que se complementam: as seis frentes de atuação da Artemisia. A nova marca fala de oportunidades. É um símbolo que provoca associações impactantes e estimula a ideia de grupo, com as particularidades das várias frentes onde atuamos. É uma história contada com uma só palavra. E aí está a importância de ela precisar ser tão clara, evidente e com uma identidade única. Essa marca representa tudo o que somos e reflete nosso desejo de surpreender e inovar sempre.”

A Anistia internacional, tanto no âmbito do design como no da comunicação, se expressa de forma contundente, corajosa. A força de seu logo está na imagem da vela cercada por arame farpado de desenho simples em amarelo vibrante e preto, cores contrastantes que já viraram marca. Sua comunicação é tão ousada quanto o símbolo de seu logo. Imagens fortes e realistas em preto e branco e o uso do amarelo com alto contraste: belo e forte.

 

anistia

O logo da WWF é um exemplo de bom design. Sintético, simples e poderoso. Atravessa décadas quase sem alteração. É direto. Por isso mesmo se tornou um clássico. No mesmo caminho segue o símbolo da Ashoka. De desenho simples, porém de simbologia metafórica, a árvore carrega muitos atributos relevantes e tem o potencial de permanecer inalterado através do tempo, tornando-se mais e mais notório.

O Instituto Sou da Paz merece destaque por dois feitos: tem uma marca diferente, ousada, que mistura fotografia e texto, algo bastante incomum no design de logo. Foi desenvolvido um bom manual de marca para ajudar com as regras de uso. É muito bem reconhecido e lembrado. Além do famoso logo, tem como parte da marca um gesto proprietário: as mãos em formato de pomba são amplamente usadas em campanhas. Certamente, um case de sucesso.

              sou da paz

 Marcas mutantes

Uma grande tendência no design de logo são as marcas flexíveis ou mutantes. O precursor desse tipo de logo é o da extinta MTV _um símbolo fixo que tinha sempre algum preenchimento diferente. Mais ou menos a mesma lógica do símbolo do movimento Girl Effect que tem um símbolo fixo, a letra G, com diversos tipos de traços ou preenchimentos. A Girl Effect apostou no design de alta qualidade também na criação de seu vídeo animação, que já foi assistido por mais de 1 milhão de pessoas.

girleffect2

 

 

Na mesma linha das marcas flexíveis está o logo da Social Good Brasil, que tem diversas combinações de linhas que se conectam desenhando formas geométricas. Na comunicação, essas formas ganham cores e texturas, oferecendo novidade e, ao mesmo tempo, consistência à identidade visual.

socialgoodbrasil

 

socialgoodbrasil2

 

No Minha Sampa, Gut Simon, responsável por comunicação estratégica, conta que no caso do Minha Sampa, o logo também sofre mudanças e houve participação popular em sua concepção.

O logo do Afroreggae está selecionado pela capacidade de adesão que conseguiu nas comunidades onde atua. É uma bandeira para quem faz parte do movimento, motivo de orgulho ostentado pelos usuários e apoiadores. Está em um estágio em que toda marca gostaria: é um logo desejado, replicado de forma espontânea nas comunidades. Mas só chegou lá por conta de muita exposição e consistência no uso dos símbolos e das cores. Feito que a Fundação SOS Mata Atlântica também já possui. Estampada em camisetas, virou bandeira pela preservação ambiental já desde os anos 1980. Seu logo segue a linha inteligente de marcas com uma “sacada”.

afroreggae

A Fundação Nokia, do setor de ensino, é um projeto da FIB em conjunto com o Grupo Troiano de Branding. Tivemos a honra de dar a essa organização um símbolo. Seu logo antes era apenas tipográfico, e os gestores sentiam falta de um símbolo que representasse seu propósito _”dando asas aos que querem voar”. Por isso o símbolo é um casulo estilizado. Precisavam também de unidade em papelaria, uniformes e sinalização. Foi criado todo um sistema de identidade visual e um enxoval completo de papelaria. https://www.behance.net/gallery/9919619/Fundacao-Nokia-Nokia-Foundation

O Instituto Arapyaú tem um logo bonito e delicado. Com um símbolo abstrato, paleta de cores terrosas e uma bela tipografia, está em nossa seleção por sua qualidade estética, pelo poder de síntese com um símbolo abstrato e originalidade. Nessa mesma linha, outro logo que nos surpreende pela beleza e originalidade é o da ONG Asa Brasil, com estética inspirada no cordel, ele sempre me chama a atenção em réguas de logos, é um bloco integrado entre símbolo e tipografia exclusivos, bem colorido.

arapiauasa

Outra ONG chamada ASA me surpreendeu com símbolo oposto ao Asa só semiáridos. Seu símbolo é elegante, geométrico, bastante sério, mas também muito bonito. Seu símbolo dá a possibilidade de outros símbolos derivados criando famílias de marca. Como o logo do projeto Wings for Change, que é uma plataforma do instituto. O símbolo é derivado do logo institucional.

                                       asas

 

 

asas2

Nossa curadoria buscou apresentar diversos caminhos e possibilidades, mas com um ponto em comum: bom design. Seus gestores certamente têm orgulho de compartilhar cartões de vistas em eventos ou de visualizar suas marcas em réguas de logos (disputado espaço em que se destacam os bons). A gestão de suas marcas certamente é mais assertiva, e o tempo de tomada de decisões no âmbito da comunicação visual, reduzido, devido a diretrizes gráficas já preestabelecidas.

Rua Gonçalo Afonso, 64
05436-100
Vila Madalena | São Paulo - SP
55 11 2615.8600
fabrica@ideiasbrasileiras.com.br